Precatórios de Alagoas: a lista de 2027 veio muito maior — e o pagamento pode ficar para 2028 ou 2029
A lista de precatórios de Alagoas para o orçamento de 2027 tem 5.220 credores e R$ 374 milhões — mais que o dobro da anterior. Entenda, em linguagem simples, por que o pagamento pode ficar para 2028 ou 2029 e o que fazer agora.
Leitura rápida
- Em maio de 2026, o Tribunal de Justiça de Alagoas enviou ao Governo do Estado a lista de precatórios da ordem de 2027: são 5.220 precatórios, somando R$ 374 milhões — mais que o dobro da lista anterior, que tinha 1.585 precatórios e R$ 154 milhões.
- A Constituição, depois da EC 136/2025, permite que o Estado limite o desembolso anual com precatórios a 1% da receita corrente líquida — hoje algo entre R$ 170 e R$ 190 milhões por ano. Ou seja: a lista de 2027, sozinha, equivale a cerca de dois anos de depósito mínimo.
- Como a fila já vem andando com cerca de um ano de atraso (o orçamento de 2025 foi pago em seis parcelas no primeiro semestre de 2026), quem está na ordem de 2027 deve se preparar para receber em 2028, podendo chegar a 2029.
Se você tem um precatório do Estado de Alagoas com ano de orçamento 2027, é natural pensar: "então vou receber em 2027". Neste artigo, explicamos — em linguagem simples e com base em documentos públicos do próprio Tribunal de Justiça — por que esse prazo dificilmente vai se confirmar, o que mudou com a Emenda Constitucional 136/2025 e o que você pode fazer agora.

Sede do Tribunal de Justiça de Alagoas, em Maceió, onde corre o processo administrativo dos precatórios do Estado. Foto: Blogilberto/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).
O que aconteceu: a lista de 2027 veio muito maior
Todo ano, o Tribunal de Justiça de Alagoas (TJ-AL) fecha a lista de precatórios que o Estado precisa incluir no orçamento do ano seguinte. Essa lista corre dentro de um processo público, o processo administrativo nº 0500027-22.2018.8.02.9003, que qualquer pessoa pode consultar no site do TJ-AL.
Em 28 de maio de 2026, o TJ-AL enviou ao Governador a lista dos precatórios apresentados entre 3 de abril de 2025 e 1º de fevereiro de 2026, para inclusão obrigatória no orçamento de 2027. Os números chamam atenção:
| Ordem de 2026 | Ordem de 2027 | |
|---|---|---|
| Quantidade de precatórios | 1.585 | 5.220 |
| Valor total da lista | R$ 154,3 milhões | R$ 374,0 milhões |
A lista de 2027 é 3,3 vezes maior em quantidade e 2,4 vezes maior em valor que a de 2026. A grande maioria são créditos de natureza alimentar — salários, aposentadorias, pensões e indenizações devidas a pessoas físicas.
Como funciona a fila (explicação rápida)
Precatório é uma dívida do governo reconhecida pela Justiça em decisão definitiva. Os pagamentos seguem uma fila por ordem cronológica: os precatórios apresentados até a data de corte de um ano entram na lista do orçamento do ano seguinte.
No papel, o Estado deveria disponibilizar o dinheiro da ordem de 2027 até 31 de dezembro de 2027 — é isso que diz o ofício do próprio Tribunal. Na prática, porém, dois fatores mudam essa conta: o tamanho da lista e o limite anual de desembolso criado pela EC 136/2025.
A conta que não fecha para 2027
Desde a Emenda Constitucional 136/2025, o ente público pode limitar o que gasta por ano com precatórios a um percentual da sua receita corrente líquida (RCL) — uma espécie de "salário anual" do Estado. Para quem tem estoque pequeno de dívida, como Alagoas, esse percentual é de 1% da RCL.
A Procuradoria-Geral do Estado de Alagoas já aplicou essa regra: em parecer juntado ao processo administrativo, limitou o desembolso de 2025 a R$ 169,4 milhões (1% da RCL de 2024, que foi de R$ 16,9 bilhões). Com o crescimento da receita do Estado, esse limite hoje fica entre R$ 170 e R$ 190 milhões por ano.
Agora a conta, de forma simples:
- A lista da ordem de 2027 soma R$ 374 milhões.
- O depósito anual mínimo do Estado fica em torno de R$ 170 a R$ 190 milhões.
- Ou seja: a lista de 2027 equivale a cerca de dois anos de depósito mínimo — e isso sem contar que a ordem de 2026 (R$ 154 milhões) ainda está na frente da fila.
E há um agravante: a fila já vem andando atrasada. O orçamento de 2025 só foi quitado em seis parcelas mensais entre janeiro e junho de 2026, conforme proposta do próprio Estado formalizada no processo. Isso significa que os pagamentos já rodam com cerca de um ano de deslocamento.
Juntando tudo: se o depósito de 2027 for consumido pela ordem de 2026, a ordem de 2027 começa a ser paga, de fato, com o depósito de 2028 — que cobre cerca de metade do valor da lista. O restante tende a ficar para 2029.
Um ponto honesto a favor de Alagoas: o Estado tem histórico recente de pagar acima do mínimo — em 2025/2026, optou por quitar integralmente o orçamento mesmo ultrapassando o limite de 1%. Se isso se repetir, os prazos encurtam. Mas é uma decisão voluntária do governo, ano a ano, e não uma obrigação com a qual o credor possa contar.
Enquanto espera, seu precatório rende menos
Antes da EC 136/2025, os precatórios atrasados eram corrigidos pela taxa Selic, que compensava razoavelmente a espera.
Agora, o cenário é outro — e isso está escrito no próprio ofício do TJ-AL que acompanha a lista de 2027:
- De 1º de fevereiro de 2026 a 31 de dezembro de 2027 (período que a emenda chama de "graça constitucional"), o valor é corrigido apenas pela inflação (IPCA), sem juros.
- Se o pagamento passar de 2027, a correção passa a ser IPCA mais juros simples de 2% ao ano — ou a Selic, o que for menor.
Em outras palavras: esperar ficou mais caro. O precatório que antes "rendia Selic" enquanto aguardava na fila agora praticamente só repõe a inflação.
Por que as ofertas pelo precatório de Alagoas mudaram
Quem acompanha o mercado de venda de precatórios notou que as ofertas por créditos de Alagoas foram recalculadas nos últimos meses. Não é má vontade dos compradores — é matemática:
1. O prazo esperado aumentou. A lista de 2027 veio muito acima da capacidade anual de depósito do Estado, empurrando as projeções de pagamento para 2028–2029.
2. A remuneração da espera caiu. Com correção só pelo IPCA (e depois IPCA + 2% ao ano), o crédito perde a proteção que a Selic oferecia.
Quando o tempo de espera aumenta e o rendimento do crédito diminui, o valor presente do precatório cai — e o desconto (deságio) exigido em uma venda antecipada tende a aumentar. Isso vale para todo o mercado, não para um comprador específico.
E quem entra na ordem de 2028?
O efeito é em cascata. A ordem de 2028 reunirá os precatórios apresentados entre 2 de fevereiro de 2026 e 1º de fevereiro de 2027. Se a ordem de 2027 só terminar de ser paga em 2029, é prudente que quem está na ordem de 2028 trabalhe com cenário de recebimento entre 2029 e 2030.
O que você pode fazer agora
- Confirme sua posição na fila. A lista da ordem de 2027 está no processo administrativo nº 0500027-22.2018.8.02.9003, disponível para consulta pública no site do TJ-AL.
- Mantenha seus dados atualizados no processo de origem (conta bancária, endereço, advogado), para não perder o momento do depósito.
- Coloque os prazos reais no seu planejamento. Se o dinheiro fizer falta antes de 2028–2029, vale comparar com calma o que se ganha e o que se abre mão em uma venda antecipada.
- Desconfie de promessas. Ninguém — nem comprador, nem advogado — controla a data do depósito do Estado. Propostas que "garantem" pagamento rápido pelo valor cheio merecem desconfiança.
Perguntas frequentes
Tenho precatório de Alagoas na ordem de 2027. Vou receber em 2027?
É improvável. A lista de 2027 (R$ 374 milhões) supera em muito o depósito anual mínimo do Estado (R$ 170 a 190 milhões), e a fila já roda com cerca de um ano de atraso. O cenário realista é 2028, podendo se estender a 2029.
Onde consulto se meu precatório está na lista de 2027?
No processo administrativo nº 0500027-22.2018.8.02.9003, no site do Tribunal de Justiça de Alagoas. A lista enviada ao Governo em maio de 2026 traz nome, CPF e número de cada precatório apresentado entre 03/04/2025 e 01/02/2026.
Meu precatório continua rendendo enquanto eu espero?
Sim, mas menos que antes. Até 31/12/2027 a correção é apenas pela inflação (IPCA), sem juros. Depois disso, passa a ser IPCA mais juros simples de 2% ao ano — ou Selic, o que for menor. Antes da EC 136/2025, a correção era pela Selic cheia.
Vale a pena vender meu precatório de Alagoas?
Depende da sua necessidade de caixa e do seu horizonte de espera. A venda antecipada envolve um desconto sobre o valor de face, que reflete o prazo e o risco do pagamento. O que recomendamos é decidir com os números reais na mesa — prazos prováveis, correção aplicável e propostas comparadas — e não com base em promessas.
Fontes oficiais
- Processo administrativo nº 0500027-22.2018.8.02.9003 — TJ-AL, Diretoria de Precatórios (lista da ordem de 2027 enviada ao Governo do Estado em 28/05/2026).
- Emenda Constitucional nº 136/2025 (alterações no art. 100 da Constituição Federal).
- Resolução CNJ nº 303/2019 (gestão de precatórios).
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui aconselhamento jurídico ou financeiro individual. Os prazos citados são projeções baseadas em documentos públicos disponíveis até a data de atualização e podem mudar conforme decisões do Estado de Alagoas e do TJ-AL.
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